Memórias de uma gueixa



Fui a Ito a trabalho, junto com outros três jornalistas estrangeiros (duas americanas e um holandês). Era novembro do ano passado, o filme Memórias de uma Gueixa estava para estrear no Japão, e as prefeituras de Ito e da vizinha Atami se uniram para promover as gueixas da região – que segundo eles são em maior número do que em Kyoto. Chamaram, então, a imprensa estrangeira. E chamaram a NHK, a maior rede de TV do Japão ...

Sim, enquanto eu e uma das americanas éramos transformadas em gueixa apareceu uma equipe da tevê pública japonesa para fazer a cobertura da nossa cobertura. Eles colaram na gente durante dois dias – às vezes era constrangedor – e virei personagem principal de uma reportagem que foi ao ar no país inteiro. De vez enquando ainda sou reconhecida, acreditam? Já aconteceu de eu ser apresentada a um japonês e ouvir: “Eu já te vi na televisão vestida de geisha-san!”
Mais legal do que vestir de gueixa e ficar famosa foi poder conversar com gueixas de verdade, ser entretida por elas em um banquete e assisti-las dançar em uma apresentação pública. Na minha cabeça, essas profissionais eram sempre muito jovens e belas. Pode até ser assim lá na glamourosa Kyoto. Em Ito e Atami elas já são maduras, e não exatamente bonitas. A caçula das sete com quem conversei, Hotaru, tem 36 anos, mas para os clientes mente que tem 28. A mais velha, Matsuchiyo, negou-se a dizer a idade -- “Gueixa não tem idade”, desconversou -- mas aparentava uns 60. Quando perguntei se gueixa se aposenta ela respondeu: “Só se quiser, conheço uma de 96 anos.”

Deu vontade de ficar horas conversando, porque elas têm um ótimo papo. Aliás este talento é um pré-requisito para entrar na profissão. Outro é a disciplina. Apesar de terem ficado muito mal faladas, as gueixas são artistas. Precisam ser virtuoses em instrumentos tradicionais japoneses (como shamisen e koto), dançar com perfeição e ainda saber dar um chega pra lá em clientes abusados sem descer do guetá.

Saí de lá me perguntando se a única alternativa de sobrevivência para essa instituição japonesa será virar atração turística. Como vão competir com tantas outras alternativas de diversão mais baratas e atrativas? Imagino que a maioria dos jovens japoneses nunca nem viu uma gueixa de perto. E pior que já tem gente vendo uma serventia nada tradicional para as gueixas. Que o diga a gueixa Makifuku. Certa noite, ela foi contratada por um jovem casal, que deixou os dois filhos pequenos com ela e saíram para curtir a noite. “Tivemos um pequeno banquete e servi suco de laranja a eles”, lembrou ela, rindo de seu dia de babá.

13 Comments:
Gente! Ta otimo o texto!
Rachell, tenho de concordar que as gueixas tem um aspecto fantasmagorico! Ja vi algumas de perto, em Kyoto, mas nunca conversei com uma. Deu uma invejinha (da boa, nao se preocupe). Ah, e nao inveja de ter se vestido de gueixa nao! Inveja de ter conversado, entrevistado e ser paparicado por uma gueixa!
Parabens!
urayamashii (que inveja - do bem, claro!).
mas certamente eu ia ficar um desastre de gueixa! como imagino que a tal americana tenha ficado...
gueixa tem que ser pequenininha, delicadinha e melhor ainda com olho apertadinho. sem chance : (
Galera, viram como a Quelzinha ficou linda de gueixa? ela é linda de qualquer jeito, não é porque é minha irmã não, mas ela perfeita....Bjos quelzinha....
Tinha adorado esse texto quando o li pela primeira vez no Meu Japão é assim e foi ótimo ter o repeteco.
Dar um chega pra lá em clientes abusados sem descer do guetá foi hilário!
Um dia como gueixa deve ter sido uma experiência incrível!
Que legal! Quando vai passar no Brasil? Qual o nome do programa?Aqui em casa vemos NHK direto (é sério). Beijos pra você e um salve pro Emerson-san.
Raquel muito querida,
história muito interessante, delícia de texto! Olha, é claro que você tem
que publicar aqui, numa revista de papel.
Beijo
Humberto
Ah danadinha! Não sabia que minha irmã estava famosa no Japão! Que
legal! Devia ter passado aqui no Fantástico... rsrsrsrs!
Para todos: vocês são muito fofos. Desse jeito eu vou até gostar desse negócio de ser blogueira. Apesar do trabalho que dá...
Para Para o alto e avante e Karina: diz o Zuenir Ventura que inveja boa não existe! Mas eu não sei se concordo com ele, não...
Para Rolem e Rangel: êta corujice! Finalmente vocês entraram no blog do cunhado. Voltem sempre!
Para Paulo: você e esse seu talento maravilhoso de reparar nos detalhes... Obrigada!
Para Carril e Elaine: geeente que chique receber a visita de vocês. Aqui no Japão a reportagem passou em dezembro de 2005. Talvez a NHK Internacional tenha exibido também. Mas não sei. Voltem sempre!
Para Humberto: geeente, mas eu tou muito chique mesmo. Obrigada pela sua ilustríssima visita. Fiquei metida de doer. Sempre que tiver um tempinho dá uma passada aqui neste humilde blog.
Beijos
Rakeru!
o blog ficou bem mais "bonito" agora!
Adorei sua aventura como gueixa. Queria saber mais sobre as donzelas. Vc não quer nos contar?
Beijocas
Para Goretti: que delícia ter visita sua! Ainda estou me adaptando com esse negócio de administrar blog. Mas você me deu um incentivo e tanto pra continuar!
Beijos saudosos
Para Jadyr: Também gostaria muito de saber mais sobre elas. O tempo que passei com elas foi curto para tantas perguntas. Ainda quero pode passar um dia inteiro, ou dois, conversando com elas.
Beijo
Oi Raquel!
Adorei o texto e o melhor: você de gueixa ... fantástico! Seria ótimo vê-la na tv por aqui também!!
Um forte abraço,
Debora
Raquelzinha,
Fico tímida de comentário aparecendo assim sem ser pop-up. :)
Que texto gostoso de ler. Te mandei um email agorinha; vamos combinar algo.
Um beijo,
Gabi
Oi, Raquel, tudo bem?
Será que você ainda acessa esses comentários? Se acessar, por favor me escreva: bruna.paixao arroba gmail com
Eu também sou jornalista, e também estou fazendo uma matéria sobre gueixas... Só que no Brasil! Uma tarefa árdua.
Por favor, se puder, me escreva.
Obrigada! bjs
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